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APRESENTAÇÃO


Quem sabe se a felicidade não seria exatamente esse pôr o homem a viver, no seu dia de hoje, a sua vida toda, integrar a memória total na parcela de homem que em cada dia somos? Ou talvez, não fosse felicidade, talvez fosse um inferno – a irremediável saudade...
José Saramago em carta a José Rodrigues Miguéis, 7 de jun. de 1960


Dentre as constantes na obra de José Saramago – de caminhos muito diversos – uma que coloca escritor nas listas dos mais importantes pensadores no entre-séculos é a de não se desapegar, por nada nesse mundo, de ser um crítico em relação ao que nos rodeia. Soma-se a isso o testamento da época que viveu, tomando para tanto, das recorrências locais para universalizá-las.

Ao dizer isso, não se ignora aquelas obras – em se tratando do romance – que começam com Terra do pecado e vão até O evangelho segundo Jesus Cristo distribuídas entre a recorrência do tema da história de Portugal (exceto o livro de 1991 que revisa a história mais conhecida de todas e, portanto, já universal); mesmo estes livros, se consideramos a dimensão alcançada pela obra de Saramago, estão entre os exemplos mais agudos dessa constante. É que embora o escritor português se refira a situações datadas, da história de seu povo, já agora os sentidos produzidos são recorrentes em outros contextos ou partir deles se ampliam.

Um exemplo é Levantado do chão. Este é um romance sobre as primeiras organizações de trabalhadores rurais contra o latifundiarismo e as imposições dos poderes de segregação; organizações que se tornariam, mais tarde, em força capaz de subverter a ordem do mando político. Mas, noutros contextos que não o português dos anos de ditadura, este romance se torna uma reflexão aguda sobre outras diversidades de levantes ao redor do mundo em nome dos direitos às liberdades, da luta de classes, e ao mesmo tempo signo sobre a necessidade da coletividade como força capaz de romper a opressão, além de revelação das imposturas das ideologias e suas estratégias de perpetuação dos mesmos modelos de sempre. Essa dinâmica, portanto, não é exclusiva de um povo, mas da comunidade humana, como um todo.

E, para o atual momento que atravessamos, de democracias à beira de um colapso em nome da manutenção das velhas ordens de segregação, de acinte aos direitos, de impostura de um status quo opressivo sobre cidadãos e trabalhadores e do acirramento dos poderes de dominação que atentam gravemente contra as conquistas de um projeto por um mundo mais justo e humano, Levantado do chão é devir: ou nos mantemos organizados e resistimos ou padeceremos ainda mais retrocessos dos recuperados até aqui. 

Tal universalidade não se restringe à compreensão do comum a todos, isto é, da elaboração / interesse por temas, situações cuja dimensão é experimentada pelo reconhecimento solitário do leitor com a realidade construída pela obra. Trata-se, antes, da preocupação pela manifestação de algo não distorcido, como se anunciando por antecipação o futuro decorrente de um estágio de embrutecimento das relações pelo modus vivendi fundado numa condição de exploração do homem pelo homem e de desprezo por aquilo que nos define enquanto humanos. Isto é, a grande tarefa da obra saramaguiana, reside no trabalho de revelação do encoberto pelas ideologias e pela possibilidade de desmantelamento dos modelos de opressão a partir de uma modificação de comportamento dos indivíduos.

A fé inabalável na ação como a única possibilidade de reinventar a comunidade humana se dá por duas constatações: uma, já exposta aqui, é que todas as transformações só são possíveis se sairmos da zona de conforto para a luta. A história é embate. A outra, é que, observador agudo do seu tempo, conforme dizíamos, Saramago terá aferido que a inércia é um dos piores males do nosso tempo. Talvez porque anestesiados pelo desencanto com as utopias ou mesmo submersos até ao espírito de certo comodismo produzido pelas condições de conforto (falsas, por sinal) vendidas pelo modelo capital. Essas condições são falsas porque em grande parte o conforto oferecido pelo atual modelo decorre das relações de exploração de uns poucos sobre a grandiosa massa de trabalhadores, tal como denunciam Levantado do chão e Memorial do convento.

Assim, a universalidade da obra de Saramago – uma delas, para ser mais preciso – decorre da proposição do desenvolvimento do sujeito autônomo e capaz de ser ordem questionadora e crítica ao universo social do qual faz parte, afinal é impossível dissociar o homem de seu compromisso com o comunitário. Estamos distantes ainda. Mas estivemos mais. A luta é um fazer contínuo. Ninguém existe casualmente ou encerrado numa dimensão individual, sem manter quaisquer relações com o outro e seu entorno. Existir é correlacionar-se. E, por sua vez, só se correlaciona na convivência ativa. É possível que há muito saibamos disso – afinal há uma sorte diversa de estímulos teóricos que apostam nessa ideia – entretanto, o mais difícil tem sido passar da poiesis a práxis. E a obra de Saramago nos exemplifica este trânsito: abandona-se a inércia, agindo. Se sabemos como, Saramago sempre nos pergunta, por que não começamos a fazer. Existir é agir. E assim como só sabemos da vida vivendo, só podemos agir motivados a ação. Pelo que esperamos?

Equipe editorial


SUMÁRIO

ADRIANA GONÇALVES DA SILVA

BIANCA ROSINA MATTIA

JACOB DOS SANTOS BIZIAK

CHARLES VITOR BERNDT

DENISE NORONHA LIMA

LISSETT M. ESPINEL TORRES

SERGIO WEIGERT

MARISTELA KIRST DE LIMA GIROLA

RAQUEL BALTAZAR


* Os textos estão em formato PDF