#4

APRESENTAÇÃO

Todos os nomes, de José Saramago, narra as buscas de um homem, solitário e preso à trivialidade, por uma mulher cujas feições só angariará conhecer através dos seus registros na Conservatória onde trabalha, da conversa que mantém com os mais próximos e do que descobre nas investigações realizadas na escola onde estudou o ícone de suas buscas. Constrói, portanto, um retrato possível sobre a desconhecida. Talvez porque todo retrato é sempre uma possibilidade; e também é característica da obra saramaguiana essa constante construção de possibilidades, desde a maneira como o escritor sugere o hibridismo dos gêneros (romance-manual, romance-ensaio, romance-evangelho, romance-conto, romance-parábola) à maneira como perfaz a história e as situações ficcionais.

Mas, é o desfecho produzido do embate com as buscas o que destacamos aqui. Sem acesso à ficha na qual estava registrada a morte da mulher motivo da procura do Sr. José – é este o nome da protagonista do romance em questão – o conservador sugere que ele recrie outra ficha. Isto é, que substitua o certo pelo possível. A resposta da personagem é dada pelo interesse de voltar a mergulhar entre os extensos labirintos da Conservatória na tarefa de resgatar o verbete da escuridão dos esquecidos.

Esta ação, para além de marcar um retorno da personagem à sua origem, como se o narrador provocasse o leitor a concluir como num círculo o circuito da existência das ações da narrativa, é responsável por uma diversidade de leituras possíveis. Uma delas refere-se à responsabilidade reservada aos vivos pela memória dos mortos. Aos olhos de Saramago, dentro e fora do romance, é tarefa nossa sempre retornarmos ao passado.

E esse retorno não responde apenas pelo zelo que devemos aos que não estão mais entre nós. É, sobretudo, um exercício de tornar presente o vivido para que esse presente se constitua da maneira mais coerente possível. Isto é, não está em questão repetir o passado ou lembrar dos mortos como uma dívida para com eles e uma alternativa de expiá-los dos erros cometidos. Esta última alternativa, aliás, se fosse o caso de tomá-la, entraríamos em total contradição com o pensamento crítico e coerente do escritor porque trata-se de uma ideia irrigada pela condição comum do Cristianismo. E, é preciso notar, mesmo que já tenha sido notado, que uma das tarefas do pensamento e da literatura saramaguiana foi sempre a de romper com esses lugares comuns sedimentados por certas particularidades da compreensão ocidental, tal como observou, acertadamente Miguel Real no ensaio “José Saramago ou a literatura como fundadora da palavra” (1999).

O que está em questão, nesse compromisso entre vivos e mortos, é uma relação de memória. O homem e toda a existência são condicionados por uma rede de memória. Ela nos diz quem fomos, quem somos e estabelece leis para o que poderemos nos tornar. O apagamento da memória, como quer os atuais modelos de vida fornecidos pela sociedade do capital, por exemplo, é um grave perigo contra a civilização, assim como é a fresta principal pela qual se espreita a barbárie.

Pouco antes da sua morte em março desse ano, Imre Kertész lamentava a morte de toda uma geração que, como ele, havia padecido os horrores do nazismo na Europa e como esse fim coincidia com o avivamento dessa sombra naquele continente. No Brasil, para citar outro exemplo, não é com tranquilidade que os sãos assistem desde há dois anos o levante de uma diversidade de movimentos cujas ideias são as mais retrógradas possíveis porque atentam abertamente contra as relações humanas: seja o endeusamento da ditadura militar, da castração química para gays, da revalidação das escolas e das universidades como zonas de formação técnica totalmente desprovida da capacidade crítica, cidadã e de intervenção política na sociedade, entre outros barbarismos. O esquecimento, o descaso com o passado – que é também um descaso com a voz do outro – são perigosos no instante em que desvia o homem da sua condição para a condição de objeto destituído de sensibilidades; o levante do homem tornado coisa entre coisas, para dialogar com um conto de José Saramago (“Coisas”, de Objecto quase) muito atual sobre isso que agora falamos.

É em nome das memórias daqueles que dedicaram suas vidas ao exercício libertador das consciências, um exercício que os irmanaram com homens como José Saramago, que esta edição da REVISTA DE ESTUDOS SARAMAGUIANOS fala. Por isso, é simbólica a presença, outra vez, da voz de Cláudio Capuano (em memória) a quem soma a presença (de igual maneira) da professora Lílian Lopondo. A eles, um coro de outros leitores, que presentificam com suas incursões uma obra tão necessária para esses dias escusos – e sempre necessária, porque nos é um constante chamado à condição humana que há muito tem nos escapado. Por isso, também um editorial que é quase a reescrita daquilo que foi escrito na edição anterior deste periódico. Não é possível tomar isso como mera repetição, porque não é. Cada itinerário por mais que siga o mesmo itinerário já percorrido é outro e não o mesmo. Que o diga aquele senhor da Conservatória do Registo Geral. Que o diga essa necessidade de não apagamento da memória ou sua substituição por uma falsa possibilidade.

Equipe editorial


SUMÁRIO

SANDRA FERREIRA

IZABEL MARGATO

CLÁUDIO DE SÁ CAPUANO

KARINA LUIZA DE FREITAS ASSUNÇÃO

JESSICA VALDATI
JOSIELE KAMINSKI CORSO OZELAME

JOSÉ SARAMAGO

JULIANE DE SOUSA ELESBÃO

IRLANDA VILLEGAS

LÍLIAN LOPONDO

AURORA GEDRA RUIZ ALVAREZ

IVANNIA BARBOZA LEITÓN


* Os textos estão em formato PDF