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APRESENTAÇÃO

Foi José Saramago quem, com sua obra e o discurso lido durante a cerimônia de recepção do Prêmio Nobel de Literatura em 1998, chamou atenção sobre o compromisso dos vivos em relação à memória dos mortos. Seu apelo não reside na mera lembrança dos que partiram, nem na sobrevalorização do passado sobre o presente, nem sua reprodução, tampouco no retorno. Reside, sim, na necessária compreensão para não repetir as imperfeições que ousamos insistir em repetir, muitas vezes de forma mais elaborada e ousada, mesmo sabedores de suas consequências.

Nesse ínterim, parece visível que as vozes do passado não podem apagar-se de um todo – ainda que nossa memória seja limitada – porque elas participam no enforme do presente; um corte entre essa relação – que deve ser contínua e dialética – é muito caro à formação da cultura e da comunidade humana. Isto é, elas são fundamentais no andamento de um necessário processo de reforma dos modelos construídos e sustentados pela civilização, o que, por sua vez, aplica-se com a mesma precisão quando o assunto não é o acontecimento histórico em si mas a impressão, por exemplo, cunhada sobre determinado aspecto da obra de arte, para citar o centro do porquê recuperar nesta apresentação o cerne dessa reflexão de natureza ampla e já esboçada em outras ocasiões destas publicações semestrais.

A REVISTA DE ESTUDOS SARAMAGUIANOS tem, assim, com sua existência, também a necessidade não apenas de evidenciar percepções integradas à reflexão sobre o homem e sua relação com os mais diversos aparatos a partir da literatura que tão bem problematizou e pensou tais questões mas compreendê-las enquanto integradoras do que somos enquanto humanidade e sociedade.  No mesmo instante em que sabemos ser construtores de um percurso que julgamos fundamental no extenso arquivo de vozes e reflexões em torno dessa literatura sabemos que toda obra literária evidentemente nunca se sustentará sozinha tal como acreditam os mais céticos da criação artística porque ela é produto de uma vivência, uma tessitura de vozes compositoras de uma densa e complexa camada feita de intercepções entre o presente do escritor e o passado; além disso, é a literatura peça que intervém como um dos aparelhos indispensáveis à constituição do que somos e dos aparelhos comunitários que criamos.

Também José Saramago terá dito sobre a importância do ato da leitura para que o livro completasse sua existência e por isso mesmo exercitou uma escrita cuja participação desse indivíduo que está na outra ponta da cadeia da escrita saísse do seu estágio de passividade e de letargia e se colocasse na posição de construtor da obra. Nessa integração, à medida que produziu uma obra interessada na refundação dos discursos pela intervenção ativa das vozes do passado, buscou fazer desse exercício uma prática experimentada primeiro pelos sentidos depois pela ação; quis e fez da literatura ínterim entre o homem e a existência.

É a ciência sobre a importância das vozes lançadas num passado e a necessidade de revigorá-las – em consonância com o apelo ao leitor na construção do que poderíamos chamar de sobrevida do livro – que sublinhamos dois textos reproduzidos na edição agora apresentada: o do professor Cláudio Capuano (em memória) e o da professora Joanna Courteau, ambos já conhecidos de um público restrito de leitores da obra saramaguiana – o primeiro, da língua portuguesa do núcleo brasileiro e o segundo, da língua espanhola. Um aponta para um dos temas mais caros à literatura saramaguiana – e já lidos de maneira diversa por outros leitores, o feminino; outro, para uma obra que talvez seja uma das mais ricas em referências simbólicas (daí a possibilidade de interpretações jamais esgotadas) e uma das que tornou em relevo o flerte que a obra de Saramago manteve sempre aceso com a literatura de língua espanhola e com a escola do chamado realismo mágico a qual tiveram como exímios mentores nomes como o do cubano Alejo Carpentier; Courteau exerce sua reflexão na centelha ainda desses dois para deslindar um ponto de interrogação colocado a partir da afirmativa de Carpentier introduzida por José Saramago no romance em questão: “Todo futuro es fabuloso”. Qual futuro?

São contemplados nesta edição, além do teatro saramaguiano, e do romance A jangada de pedra (do qual trazemos ainda a reprodução de algumas páginas de notas manuscritas de José Saramago), reflexões sobre a identidade a partir da leitura quase integral da obra romanesca do escritor português, da leitura de As intermitências da morte, A viagem do elefante, Memorial do convento e Todos os nomes, todas com abordagens cuja preocupação nascida no texto literário logra ampliar ou lançar algumas lufadas sobre a complexa realidade humana, todas atentas a não se descuidar da literatura como espaço de saber, tal como compreendeu Roland Barthes na sua aula de chegada ao Collège de France – “A ciência é grosseira, a vida é sutil, e é para corrigir essa distância que a literatura nos importa.”

Resta-nos desejar uma prazerosa incursão por mais esta edição de vozes atentas aos lugares percorridos pela força da literatura saramaguiana.

Equipe editorial


SUMÁRIO

JOSÉ ENRIQUE FINOL

CIRO LEANDRO COSTA DA FONSÊCA
JOSÉ ROSAMILTON DE LIMA

CLÁUDIO SÁ CAPUANO

JIMENA BRACAMONTE
ARIEL GÓMEZ PONCE

JOANNA COURTEAU


JOSÉ JOAQUÍN PARRA BAÑÓN

ANTÓNIO JOSÉ BORGES

HUGO LEONARDO PRATA
EDMUNDO DE DRUMMOND ALVES JUNIOR

* Os textos estão em formato PDF